Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a todos que comentaram no blog, acessaram e continuam acessando. 

Bom, nessas últimas semanas acompanhamos as notícias sobre a Patrícia Camargo que foi deportada na Espanha. Quando li a notícia, resolvi publicá-la no blog, pois estamos vendo claramente que o combate ao crime organizado, tráfico de seres humanos e terrorismo, está afetando diretamente pessoas que não estão envolvidas nesses crimes. 

Li as notícias sobre o caso da Patrícia e de outras pessoas, e as análises realizadas sobre os casos. Portanto, o objetivo deste post, é esclarecer algumas informações que foram veiculadas de forma imprecisa e absolutamente sem critérios de análise. 

SOBRE A ENTRADA NA REGIÃO DE SCHENGEN 

O artigo 5 do Acordo de Schengen estabelece os requisitos de entrada na região, e as causas que podem provocar sua negação. Entre estes requisitos se encontra o passaporte ou documento de viagem, o visto no caso de ser necessário, e que não estejam imersos numa proibição de entrada no país. Ademais, deverão apresentar os documentos que justifiquem o objeto e condições da entrada, e comprovar meios de vida suficientes para o tempo que pretendam permanecer nos país ou estar em condições de obter legalmente esses meios. Os artigos 7 e seguintes do Acordo estabelecem como se justifica o objeto e as condições da entrada, exemplificativamente, passagem de volta, convites, viagens organizadas, a comprovação de meios econômicos. 

Patrícia chegou a mencionar que a sua carta de expulsão já estava pronta antes mesmo de ouvirem seu depoimento. Esse é o procedimento adotado normalmente segundo o Acordo de Schengen onde a execução da ordem de expulsão se efetua de forma imediata, o que não exclui o direito ao recurso. 

No caso da Patrícia, entre muitos outros casos analisados, foram entregues todos os documentos exigidos pela polícia, mas continuaram afirmando que não estavam com todos os documentos necessários. O argumento principal para a admissão ou expulsão dos imigrantes é o conceito de ordem pública, que vai além da comprovação do visto, de meios econômicos e de condições sanitárias, que pode incluir qualquer indício de que o estrangeiro possa cometer atos delitivos em qualquer um dos territórios do espaço Schengen, avaliação que corresponde às autoridades policiais de controle das fronteiras. 

O país de destino tem o direito de não aceitar determinada pessoa, se concluem que esta não conseguiu provar o real objetivo de estar querendo entrar naquele país, pois sabemos das diversas “artimanhas” que o crime organizado utiliza para obter sucesso nas imigrações ilegais e no tráfico de seres humanos; mas a forma com que os estrangeiros são tratados – principalmente latino-americanos e africanos – não só na Espanha, mais em diversos países da União Européia e Estados Unidos; deixando-os sem informações, confinados com várias outras pessoas, sem condições de higiene, e um tratamento desumano e preconceituoso.   

CRISE NOS CONSULADOS E EMBAIXADAS BRASILEIRAS? 

A subjetividade utilizada pelos policiais para admissão ou expulsão de um estrangeiro, a falta de clareza sobre os documentos que devem ser levados ao país de destino, as péssimas condições sob as quais as pessoas a serem deportadas ou expulsas ficam, o tratamento discriminatório da polícia espanhola (e de outros países), somada à negligência do consulado brasileiro torna o debate um diálogo de surdos, e fica uma certa ambigüidade no ar, na medida em que o consulado brasileiro diz ter feito o que pôde, mais ninguém sabe e ninguém viu ao certo o que fizeram, principalmente aqueles que foram tratados de forma degradante. Por debaixo dessa ambigüidade parece se materializar uma cumplicidade tácita entre a polícia espanhola e o consulado brasileiro em Madrid. 

A defesa do Direito internacional, principalmente no que se refere aos Direitos Humanos dos brasileiros em outros países, passa também por reconstruir uma identidade para os agentes do corpo diplomático, entre cônsules e embaixadores, que atualmente vêem suas atividades reduzidas a trâmites burocráticos, além de estarem presentes a eventos, lançamentos de “x,y,z”, entre outros tantos jantares. Concluímos nesses casos que o cônsul é praticamente uma figura simbólica, uma ficção teórica na qual quando o invocamos a comparecer na realidade, simplesmente, não sabe o que fazer. É difícil tirar Alice do país das maravilhas, para agir no mundo real. 

O GRANDE DESAFIO DAS POLÍTICAS MIGRATÓRIAS 

Os governos precisam buscar um equilíbrio, entre a eficácia no controle das fronteiras e a garantia dos direitos humanos e um tratamento digno, seja dos imigrantes legais, seja dos ilegais na hora de averiguar e aplicar as ordens de expulsão. Para uma potência média como a Espanha, esses elementos são as variáveis mínimas fundamentais na geração de uma imagem que favoreça seu protagonismo internacional. 

Isso tudo compõe um processo de aprendizagem, pelo qual vai se compreendendo melhor a complexidade e a gravidade dos problemas estabelecidos pelo fenômeno da imigração, resultando no aperfeiçoamento das políticas de imigração, combate ao terrorismo e crime organizado, sem afetar os imigrantes de forma discriminatória. Lembrando que o migrante, independentemente de sua condição migratória, é sujeito de direitos fundamentais inerentes à sua condição de ser humano. 

UMA RESPOSTA SOBRE AS ANÁLISES REALIZADAS SOBRE A ESPANHA E SEU TEMPO PARA SE ADAPTAR ÀS REGRAS DA UNIAO EUROPEIA, DENTRE AS QUAIS A ENTRADA DE ESTRANGEIROS.

 Em 1977 a Espanha apresentou formalmente a solicitação de adesão à Comunidade Européia (CE), hoje União Européia (UE), entrando na CE no dia 1º de janeiro de 1986. De certo, por várias razões, entre elas a turbulência política que viveu a Espanha até 1985, o país tardou em integrar-se na CE, por exemplo, o dobro de tempo que o Reino Unido. Desde 1986 sua influência em Bruxelas foi, no geral, superior ao que lhe corresponderia pelo potencial econômico. A CE a que a Espanha aderiu não é a mesma que aquela com a que começou a negociar; têm mais sócios e outras características. Portanto, podemos afirmar que a Espanha esteve desde o princípio na Europa do mercado interno (anos oitenta) e na Europa da coesão social.  

ã Daniela Alves, analista de relações internacionais.

3 thoughts on “Algumas respostas sobre os casos de deportação”

  1. ISSO TODOS PRECISAM SABER!
    EU FUI INADMITIDA NA ESPANHA…
    ESTAVA INDO FAZER UM MOCHILÃO NO DIA 08 DE DEZ E VOLTARIA DIA 08 DE FEV.2009
    MAYZA

    Um grupo de voluntárias brasileiras da entidade católica de auxílio a dependentes químicos Fazenda Esperança foi detido na quarta-feira no aeroporto de Madri e impedido de seguir viagem para Alemanha, onde visitaria representantes do projeto.
    Elas dizem ter ficado detidas no aeroporto internacional de Barajas por mais de 26 horas, antes de serem mandadas de volta para o Brasil. Apenas um das integrantes do grupo de cinco pessoas foi autorizada a seguir viagem.
    "A gente fica muito indignada pela falta de respeito com que nos trataram", disse Elza Cortez, auxiliar de escritório da Fazenda Esperança de Guaratinguetá. Ela ia para Alemanha para visitar a filha, que trabalha há três anos em uma representação do projeto nos arredores de Berlim.
    Ela e as colegas Eliana de Almeida, Aída da Silva e Maria da Conceição Rocha chegaram a Madri na quarta-feira, às 9h45, e embarcaram de volta para o Brasil por volta do meio-dia do dia seguinte.
    De acordo com Elza, o grupo de brasileiros que embarcou de volta com elas contava com mais de 20 pessoas. (Eu não estava nesse grupo, embarquei em outro vôo mais tarde)
    "Era muita gente junta no mesmo local. Sentimos uma pressão psicológica muito grande. Os policiais nos escoltaram até a porta do avião", lembra.
    Ela também reclamou do tratamento dado aos brasileiros.
    "Os policiais ficaram com todos os nossos medicamentos e tinha gente passando mal, pessoas doentes, com problemas de coração, uma senhora com oito meses de gravidez", lembra. ( Não tinha como tomar banho nem escovar os dentes. Havia uma chinesa que estava presa com seu filhinho há mais de 15 dias e ela contou que chegou a tomar banho na pia e se enxugar com papel higiênico, já que eles ficam com todas nossas coisas e ninguém tem acesso a nenhum produto de higiene)
    "Eu mesmo tenho problema de diabetes e tenho que comer de duas em duas horas".
    Motivo arbitrário
    Segundo as brasileiras, os policiais espanhóis alegaram que elas não possuíam os documentos e recursos financeiros necessários para prosseguir viagem.
    "Não entendo porque me deixaram passar e não as outras, embora estivéssemos com os mesmos papéis", diz Rita Correa, a única que conseguiu pegar o vôo para Berlim.
    Para ela, o motivo para o impedimento de suas amigas teria sido arbitrário.
    "Apresentei meu passaporte, o papel da imigração preenchido e passei", recorda. "Minhas amigas, que não tinham preenchido o formulário ainda, tiveram que retornar e, após mostrarem o passaporte, foram levadas para interrogatório".
    Mathias Laminski, o padre alemão que havia convidado as brasileiras para visitarem Berlim, também afirmou que o grupo estava com a documentação em ordem.
    "Elas estavam com toda a documentação necessária, incluindo seguro de saúde e uma declaração nossa, em alemão, carimbada pela paróquia, assumindo todas as despesas da estada do grupo", afirma.
    Laminski se mostrou indignado com a atitude dos policiais espanhóis do aeroporto de Madri. Segundo o religioso, os guardas não quiseram se identificar ao telefone e usavam de sarcasmo ao responder a suas perguntas.
    "Um deles chegou a dizer que o motivo para repatriar os passageiros dependia do ânimo do chefe ou se o oficial do dia tinha dor de estômago ou não", afirma o padre. "Isso é uma atitude revoltante". ( Vi uma brasileira tentando conversar com eles e a policial disse que não entendia e não gostava nada da nossa língua)
    Quando eles me revistaram e tiraram todas minhas coisas eu indaguei o porquê não podia ficar com meus objetos pessoais e ela me respondeu que era perigoso ficar com minhas coisas porque as pessoas lá eram perigosas…Sendo que fiquei 2 dias com essas pessoas
    Documentação
    A polícia espanhola do controle de fronteiras do aeroporto de Barajas afirma que a maioria dos casos de brasileiros barrados acontece por falta da documentação necessária.
    Sem citar este caso específico (as autoridades apenas confirmaram que um grupo de sul-americanos teve a entrada negada em Barajas), a polícia afirmou que o turista deve demonstrar com provas materiais que não permanecerá como imigrante ilegal no país.
    Segundo um policial do aeroporto, "não há discriminação com brasileiros, nem com nenhuma nacionalidade" e as normas "são para todos".
    O oficial afirmou à BBC Brasil que os turistas sul-americanos que pretendem fazer escala na Espanha têm que viajar com o visto Schengen. O carimbo é uma prova de que o passageiro seguirá viagem para outro país da União Européia e tem livre circulação na região.
    Na lista de documentos necessários estão ainda reservas de hospedagem, contatos de pessoas a quem visitará, cartão de crédito ou dinheiro (cota de 60 euros por dia de estadia) e o visto Schengen, apenas para quem faz escala na Espanha. Para desembarcar em Madri como turista, não é preciso visto.
    Consulado
    O cônsul brasileiro em Madri, Gelson Fonseca, explicou à BBC que o governo brasileiro "pouco ou nada pode fazer nesses casos".
    "É verdade que a polícia tem autoridade para escolher quem entra e quem não. O consulado tenta ajudar, demonstrar que o visitante está dizendo a verdade. Entramos em contato com o Ministério do Interior e colocamos uma queixa oficial, mas a polícia tem a última palavra. Não basta dizer que foram convidadas por alguém, que resolverão quando chegar lá… A polícia pede provas e quem não dá, não entra. Aconteceu de novo com esse grupo e eu lamento", disse o cônsul.
    No início deste ano, Brasil e Espanha enfrentaram uma crise diplomática pelo aumento de casos de brasileiros detidos em aeroportos espanhóis e deportados para o Brasil

  2. Brasileira presa em Madrid. Presa não! Impedida.

    Prezados,

    Venho através dessa denúncia me apresentar.

    Tenho uma certidão de nascimento, que consta um nome e sobrenome: Karina Salzgeber, que também diz sobre minha naturalidade: Suzano, logo sou Brasileira. Para os mais conhecidos sou apenas a Karina. Para a Receita Federal, sou contribuinte e declaro imposto de renda. Para a Anac, tenho um passaporte válido. Para a companhia aérea, Ibéria, sou uma cliente. Para o consulado brasileiro em Madrid, sou ignorada. Para o Posto Fronterizo, em Madrid-Barajas, sou uma CRIMINOSA. E finalmente para o meu país, minha pátria amada, sou só mais um número de uma estatística triste e crescente.

    Depois dessa breve apresentação, venho denunciar a todos os interessados, ou não, como é a vida de uma turista que resolve ir a Lisboa visitar a família de seu namorado, mas fica PRESA em Madrid, por ser alvo de puro preconceito, maus tratos e taxada como ilegal e criminosa. E claro, por uma questão política. Além de se encaixar em mais um preconceituoso perfil: “Mulheres jovens, bonitas e desacompanhadas são alvos. Moças com esse perfil conseguem mais facilmente empregos informais.” – mais que porra de argumento é esse? Só falta falar que o fator beleza gera crise em um país. Engraçado que alguém deve ter se esquecido, que em 2013, essa mesma ESPANHA, disse que ia facilitar a entrada de brasileiros… mas mulher brasileira bonita pode? Claro. Na ocasião não importava se você era feio ou bonito, importava é tirar o país do buraco. Como meu destino não era, nunca foi e só será, e SE SOMENTE SE, for, é pra receber publicamente um pedido de desculpas e a retirada de todas as acusações, então não vou gastar meu português. Afinal, espanhol, ellos no me entienden.

    Entrei num avião no aeroporto de Guarulhos, no dia 29/03/2015, às 15:30, com conexão em Madrid e um destino final em Lisboa, digo, Brasil. Para facilitar o entendimento prometo tentar não me prender muito aos detalhes, tanto de tortura física ou psicológica, pois os mesmos ainda causam transtornos não só pra minha pessoa. Mas para todos os familiares envolvidos. E a indignação é extrema quando vemos que isso não é de hoje e até hoje acontece. Como?

    Cheguei em Madrid, detalhe: já fiz essa conexão outras vezes, sem NENHUM PROBLEMA, e fui surpreendida quando fui direcionada para uma sala quando respondi ao policial que vinha de São Paulo. Achei estranho, mas como não tinha nenhum problema que impedisse minha conexão, achei que fosse só um protocolo. Quando me dei conta que nessa sala só havia eu de brasileira e outras quinze pessoas, comecei a pensar que poderia ser algum tipo de engano. Mas quis acreditar que não. Afinal, passei outras vezes e nada. Depois de aproximadamente duas horas, mais uma brasileira se juntou à sala. E depois outra. Comecei a questionar ao policial sobre minha conexão, estava chegando a hora de embarcar e ele num gesto imbecil, grosseiro e mal intencionado, diz: “No sé lo que estás hablando. no entiendo.”

    Passadas algumas hora fui levada para uma primeira entrevista, em outra sala, fora da área do aeroporto, que segundo informações, seria rápida e logo estaria liberada. Fui atendida por uma policial, que me questionou o motivo de viagem, se eu tinha dinheiro suficiente, cartão e um documento para comprovar um endereço fixo em Madrid. Insisti que estava apenas em conexão e que para tal, atendia todos os requisitos para essa breve passagem pelo aeroporto de Madrid, como já feito antes. Ela disse que iria averiguar e me direcionou para falar com uma assistente social em outra sala. Mal sabia que a assistente social, só tinha dois papéis vender cartão telefônico e me dar três absorventes.

    Tive que deixar minhas coisas, depois de revistadas: item por item, em uma sala que era trancada. Quando me dei conta, a conexão foi perdida e eu estava presa. Isso mesmo. PRESA. Mas que eu teria um advogado e um tradutor, então tranquilidade teria que pairar no ar. Presa? O que eu fiz? Comi demais no avião? Não sei falar o espanhol perfeitamente e grosseiro como o dos policiais? Qual o motivo? Ninguém me respondia nada. Muito menos me ouviam.

    Num momento de desespero comecei a olhar ao meu redor e vi que as pessoas da primeira sala, ali estavam. Mulheres. Latinos. Negros. Crianças. Olhei para um quarto onde haviam algumas camas. Separadas, mulheres e homens. Uma ao lado da outra. Sem nenhum tipo de privacidade e PROTEÇÃO. Assim como o banheiro, um ao lado do outro, ou seja, você FICA VULNERÁVEL SIM A QUALQUER SITUAÇÃO. Depois de muito esperar veio a comida, fria, péssimas condições e uma água. A comida era colocada por um senhor em uma mesa de plástico e um policial acompanha essa entrega. Você senta de frente para uma parede de vidro que você não vê nada, além do seu próprio reflexo, de preso. Atrás dela, policiais ficam te vigiando. Todos armados. Mas sem identificação de nomes.

    Fui informada pelas outras pessoas que haveria uma outra entrevista com o tal advogado e o tradutor. A hora não passa e você encontra um telefone que diz ser linha direta do consulado em Brasília, o Itamaraty. A ligação é “grátis”. Esse telefone não atende. Aliás ele está incorreto. Chegando a hora da entrevista, a policial insistiu na mesma pergunta do motivo da viagem e depois sem muitas explicações, e estupidamente me disse que já tinha ultrapassado os noventa dias que me dá direito, de acordo com o acordo: podem circular por 90 dias dentro de um período de 180 dias, a contar da data da primeira entrada. Entrei em 31.10.14. Tentei mostrar que a conta estava errada, fui chamada de burra, pra baixo, pois ela determinava tudo. O advogado só dizia: não posso fazer nada. Detalhe: um advogado espanhol. O que me adianta um advogado espanhol se eu sou brasileira e estou no território deles? Eu respondo: NADA!

    Depois de muita discussão sobre matemática, ela me questionou novamente sobre a carta de convite. Eu disse que o endereço fixo era em Lisboa mas que se fosse necessário enviaríamos para ela, assim como entregaria em mãos, já que a minha família e a família do meu namorado foram avisados. E iriam até lá caso necessário. Sim, foram avisados sim, mas por MIM. Não como o direito prega, que a família seria avisada pelo consulado brasileiro e todas as providências para o bem estar estavam garantidas. Garantido mesmo só a comunicação graças aos 5 euros para comprar um cartão que acaba logo. Como comprei 4, fiz questão de parar de ligar e esperar que as pessoas retornassem. Isso funcionava. Você passa o número do orelhão e as pessoas te ligam. O fim dos cartões foram para as pessoas que nem sabiam quando iam embora e a família nem sabia do paradeiro. Teve gente que queria apenas 1 minuto e quis me devolver. Teve gente que disse que só tinha 1 minuto e ficou com o cartão. Graças a Deus. Na necessidade, você compreende o desespero. Não ia guardar de lembrança. A única lembrança que quero ter é ver o sorriso e o choro de emoção quando alguém conseguia falar com sua família. É o que te alivia. Te deixa forte.

    Bom, meu contato com o consulado brasileiro foi bem direto e eficaz. Ele teve o maior descaso. Afinal, quando consegui falar, foi quando ele retornou um recado que deixei antes no celular dele. Horas e horas depois. Nisso eu já sabia que não iria continuar, ou seja, já tinha sido considerada como ilegal e teria a volta o mais rápido pro Brasil. A ligação do consulado brasileiro em Madrid, foi só pra me dizer que eles estavam certos e não me liberavam pra livre acesso ao aeroporto para uma alimentação e um banheiro digno, pois eu iria fugir. E o local era próprio é p mesmo já tinha ido lá. Fugir pra onde? Sem documento? Sem lenço. Mas que ele deixava claro que eu não estava numa prisão, pois não tinha grades. Mas tinha policiais armados e bem armados. Ora, ele presta ajuda a brasileiros com problemas sérios no exterior ou ajuda o país a acabar com o brasileiro?

    Todos os esforços foram feitos para que eu saísse daquela prisão, menos o esforço principal, o do MEU PAÍS. Preso no Brasil tem direito a banho de sol. Eu nem podia ver o sol, só um de lápis de cor, que estava desenhado na parede, talvez por uma das crianças que já passaram por ali. Tentei várias vezes pegar meu celular para tirar fotos ou gravar qualquer segundo, mas o policial te acompanhava e revistava com luvas, tudo que você tirava da bolsa. Peguei umas fotos que levava dos meus pais, eles olharam uma por uma, como se numa foto eu estivesse escondendo uma bomba que colocasse o país em perigo. Recebi uma ligação do meu pai que me deixou em prantos, não queria escutá-lo chorar. Afinal, por que a filha dele estava nessas condições? O que ela fez de errado? Um policial se comoveu, ou se irritou, com o meu soluçar e me levou para um ser que se designava médico, que nem me perguntou nome, o que tinha acontecido, não prestou socorro, não fez uma triagem, como as de praxe: medir pressão, tentar me acalmar, conversar. Ele simplesmente resolveu o problema: me deu um “remedinho”. Alguém se preocupou em saber se eu tinha algum problema de saúde ou alergia a algum medicamento? NÃO. Depois disso me devolveram para a salinha para que eu pudesse esperar meu voo. Enquanto isso um policial tentou entender o motivo de tanto choro e indignação. Respondi que não sabia o que fazia ali já que meu destino era Lisboa. Fizemos contas. Pra minha surpresa, esse mesmo policial me orientou a fazer um novo passaporte, assim entraria em Lisboa sem problemas e que evitasse a Espanha. Afinal meu destino era Portugal. Famosa roleta russa. Belo jeito de ser justo e policial, te prende e te ensina a cometer um crime. E EU QUE SOU A CRIMINOSA.

    Chorei o resto da noite até as intermináveis badaladas de 00:35, a hora do meu regresso ao BRASIL, que primeiro, seria uma cortesia da ESPANHA. Na verdade eles adiantaram a minha passagem de retorno, afinal a empresa também é espanhola. Quando pensei que chegando a hora do embarque, a humilhação toda acabaria. Fui levada num camburão de polícia todo fechado e com câmeras, para a porta do avião. Fui exposta a todos os passageiros pois o embarque já tinha sido feito. As comissárias faziam questão de te tratar mal e te expor por ser uma pessoa ilegal.

    Depois de tudo isso, fiz questão de receber o meu passaporte na frente de um policial federal brasileiro e em solo brasileiro, que me deu orientações e disse ser bem comum e triste. Afinal eu pertencia a um grupo de pessoas que chama a atenção. Infelizmente.

    Vi que meu passaporte tinha um carimbo estranho e minhas malas estavam por aí. Questionei sobre o que dizia aquele carimbo e tudo que o consulado me diz até agora é: “No sé lo que estás hablando. no entiendo.”

    Então, na minha humilde pessoa não entendida, venho apelar por uma explicação de tudo isso. Qual crime foi cometido pra que eu não pudesse seguir viagem? E quanto a minha visita a LISBOA? E o Brasil? Cadê a proteção do brasileiro no exterior? Cadê os direitos humanos? Cadê algum representante aparecendo nessa sala pra ver qual a real situação de quem está ali? Fácil é divulgar que você não fica preso e tem todo o apoio. MENTIRA. O que você tem é a dignidade de chegar ao seu país, se expor e ainda achar que existe justiça.

    Quem arca com todo esse prejuízo? Eu e minha família? Estou proibida a entrar na Europa? Como vejo meu namorado em Lisboa? Por que? Qual a minha pena?

    Pelo amor de DEUS, existem mais pessoas lá sofrendo abusos. Psicológicos e físicos. Somos mantidos como criminosos em situação precária. Alguém precisa fazer alguma coisa. Caso contrário, a estatística cresce e o povo que arca com os problemas criados pelos interesses políticos. Chega. Já nos basta arcar com tantas injustiças dentro do país que vivemos. Quando conseguimos viajar, não estamos cometendo crimes. Estamos sim, com o direito de gastar nosso suado dinheiro que mesmo desvalorizado é conseguido de forma digna e honesta. Chega de danos materiais em épocas de férias. Viagem é motivo de alegria. Não uma tragédia, por ser brasileira. Danos morais. Cadê quem nos representa no exterior? Não pagamos a ida de vocês lá, só pra jantares de interesses. Vão lá e vejam o que fazem com o seu povo, esse que vota em todos vocês! Duvido que alguém foi naquela sala e acha realmente justo o tratamento que é dado quando você é impedido de entrar num país. Tinha gente que tinha carta de convite de trabalho de Madrid e está lá, presa!

    Não desejo o mesmo para os espanhóis. Desejo que eles venham ao Brasil sim. Desejo que seja cumprida a lei da reciprocidade. Desejo paz. Desejo ir e vir. Desejo conhecer lugares e culturas. Desejo que as pessoas se respeitem. Desejo que direitos sejam cumpridos. Não achem que temos só deveres. TEMOS DIREITOS SIM. Quem vai me garantir uma ida segura pra encontrar meu namorado e sua família? Quem vai limpar meu passaporte? O policial espanhol?

    A única garantia que tenho é que mesmo dentro do meu país, sirvo pra Espanha como cliente. Cliente de bancos em categoria diferenciada onde a gerente vem na minha casa. Sou cliente e refém da telefônica, pois no Alto Tietê sabemos que a mesma é única e exclusiva, pra quem quer ter uma conexão com a internet. Fui funcionária da TELEFÔNICA, como era meu perfil nessa época? De criminosa? De praticante de atos ilícitos? Trabalhar na telefônica significa ter um emprego informal e fácil? O Brasil precisa realmente se revoltar, hoje metade dos problemas seriam resolvidos se antes de aceitar contratos com países e ficar na mão deles, é preciso ter visão do que você abre mão. No caso do seu povo.

    “Espanhola Gamesa vence dois contratos de turbinas eólicas no Brasil.”

    “O Brasil é o principal destino de investimentos espanhóis no exterior, com 66 milhões de euros anuais, o que torna a Espanha o segundo país estrangeiro em volume de investimentos no Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2014, o número de empresas espanholas com filiais brasileiras superou sete mil, com geração de mais de 200.000 postos de trabalho locais.”

    “O estaleiro Navantia, maior empresa de defesa da Espanha, vê o programa de reaparelhamento da Marinha brasileira como uma grande oportunidade para incrementar seus negócios internacionais na área de construção naval militar, setor que responde por 80% do faturamento do estaleiro, de € 1,6 bilhão por ano.”

    “O interesse da Espanha é continuar comprometida com o Brasil e aproveitar todas as oportunidades que possam surgir” …

    E nós brasileiros? Criminosos.

    Parabéns a todos os envolvidos.

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